Pular para o conteúdo principal

Dra. Angélica Manfroi – Medicina de Família e Comunidade em São Paulo – SP

A obesidade é uma condição de saúde complexa, multifatorial e cada vez mais prevalente.
Segundo o Ministério da Saúde, mais da metade da população adulta brasileira está acima do peso, e uma em cada quatro pessoas vive com obesidade.
Esse cenário vem crescendo nas últimas décadas, impulsionado por mudanças no estilo de vida: alimentação rica em ultraprocessados, sedentarismo, estresse, privação de sono e ritmo acelerado da rotina moderna.

A obesidade não é apenas uma questão estética, mas uma doença crônica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que aumenta o risco de diversas condições — como hipertensão, diabetes tipo 2, apneia do sono, doenças cardiovasculares, osteoartrite e alguns tipos de câncer.
Cuidar do peso corporal, portanto, não significa buscar padrões de beleza, e sim promover saúde, qualidade de vida e bem-estar duradouro.


O que é

A obesidade ocorre quando há acúmulo excessivo de gordura corporal, resultante de um desequilíbrio entre a energia ingerida e a energia gasta.
Ela é diagnosticada, inicialmente, por meio do Índice de Massa Corporal (IMC) — calculado dividindo o peso (em kg) pela altura (em metros) ao quadrado.
Valores de IMC ≥ 30 kg/m² indicam obesidade.

Entretanto, o IMC é apenas uma referência.
Ele não reflete toda a complexidade do corpo humano, pois não diferencia massa magra de gordura, nem considera a distribuição corporal.
Por isso, a avaliação médica inclui também medidas como circunferência abdominal, composição corporal e histórico clínico.

A obesidade pode ter múltiplas causas: genéticas, metabólicas, hormonais, psicológicas e ambientais.
O importante é compreender que não se trata de falta de força de vontade, e sim de uma condição que requer abordagem médica, acompanhamento multiprofissional e apoio contínuo.


Quando desconfiar

Muitas pessoas só percebem o problema quando surgem sintomas ou complicações.
Alguns sinais de alerta incluem:

Ganho progressivo de peso, mesmo sem grandes mudanças na alimentação.

Fadiga e falta de ar em atividades simples.

Dores articulares e cansaço.

Alterações no sono, roncos ou apneia.

Aumento da circunferência abdominal.

A obesidade é silenciosa em seus estágios iniciais, mas pode gerar impactos físicos e emocionais significativos, incluindo baixa autoestima, ansiedade e isolamento social.

“Eu achava que estava bem, até perceber que subir um lance de escadas me deixava exausta. Fui ao médico e descobri que estava com obesidade grau 1. No começo, senti vergonha, mas o acolhimento da equipe fez toda a diferença. Hoje entendo que não se trata de culpa, mas de cuidado — e que pequenas mudanças constroem grandes resultados.”
— Renata, 46 anos

“Durante muito tempo, tentei emagrecer por conta própria. Dietas restritivas, fórmulas milagrosas… sempre voltava a engordar. Quando comecei a fazer acompanhamento médico e nutricional, aprendi que precisava cuidar do sono, do estresse e da minha relação com a comida. Foi libertador.”
— Carlos, 52 anos


Fatores de risco

A obesidade resulta da interação de fatores modificáveis e não modificáveis:

Não modificáveis:

Genética e metabolismo individual.

Idade (o risco aumenta com o tempo).

Histórico familiar de obesidade.

Modificáveis:

Alimentação rica em ultraprocessados, açúcares e gorduras.

Sedentarismo e longos períodos de inatividade.

Privação de sono e estresse crônico.

Uso de certos medicamentos (como corticoides).

Consumo excessivo de álcool.

A boa notícia é que os fatores modificáveis são justamente aqueles que podemos trabalhar com apoio médico e multiprofissional — sem pressa, mas com constância.


Por que é importante tratar

A obesidade é uma condição crônica progressiva, e tratá-la precocemente reduz o risco de complicações graves.
Entre elas:

Diabetes tipo 2.

Hipertensão arterial e dislipidemia (colesterol alto).

Doenças cardiovasculares.

Apneia do sono.

Doenças articulares e osteoartrite.

Cânceres associados ao excesso de peso (mama, endométrio, intestino).

Além dos efeitos físicos, há impactos emocionais importantes: vergonha, isolamento, discriminação e dificuldade de autoaceitação.
Esses fatores interferem diretamente no tratamento, reforçando a necessidade de acolhimento empático e abordagem integral.

Cuidar da obesidade significa restaurar o equilíbrio físico e emocional, e não apenas reduzir números na balança.


Seguimento médico e tratamento

O tratamento é individualizado e pode envolver:

Mudanças graduais na alimentação, com foco em qualidade, não em restrição extrema.

Atividade física regular, adaptada à condição física da pessoa.

Reeducação do sono e manejo do estresse.

Acompanhamento psicológico, abordando a relação com o corpo e a comida.

Medicações antiobesidade, quando indicadas pelo médico.

Cirurgia bariátrica, em casos selecionados e com preparo adequado.

O acompanhamento regular permite ajustar estratégias, celebrar avanços e prevenir recaídas.
O médico de família e comunidade atua integrando essas dimensões e acompanhando cada etapa do processo.


Impacto emocional e social

A obesidade frequentemente afeta a autoestima e o bem-estar psicológico.
Muitas pessoas enfrentam preconceito, tanto social quanto no ambiente de trabalho, o que pode levar à ansiedade e à depressão.
Por isso, é essencial compreender que emagrecer não é apenas um ato físico, mas também emocional.

O acompanhamento psicológico, aliado ao vínculo médico, ajuda a pessoa a reconstruir a relação com a comida e com o próprio corpo, reconhecendo o autocuidado como um gesto de respeito e amor-próprio.


Perguntas e Respostas

P: Obesidade é sempre culpa da pessoa?
R: Não. Trata-se de uma doença crônica que envolve múltiplos fatores, muitos fora do controle individual.

P: Toda pessoa obesa precisa de cirurgia bariátrica?
R: Não. A cirurgia é indicada apenas em casos específicos e após tentativas de tratamento clínico.

P: É possível emagrecer sem dieta restritiva?
R: Sim. O foco deve ser em mudanças de hábitos sustentáveis, não em restrições temporárias.

P: Dormir mal engorda?
R: Sim. A falta de sono altera hormônios ligados à fome e à saciedade, favorecendo o ganho de peso.

P: O estresse influencia o peso?
R: Sim. O estresse aumenta o cortisol, hormônio que estimula o apetite e o acúmulo de gordura abdominal.

P: Medicamentos ajudam a emagrecer?
R: Podem ajudar, mas devem ser usados com acompanhamento médico. O tratamento é sempre combinado com reeducação de hábitos.

P: O emagrecimento rápido é o melhor caminho?
R: Não. Perdas bruscas de peso são difíceis de manter e podem trazer prejuízos à saúde.


Mitos e Verdades

Mito: Basta fechar a boca para emagrecer.
Verdade: A obesidade envolve metabolismo, hormônios e emoções — não é apenas força de vontade.

Mito: Comer à noite engorda.
Verdade: O que importa é o total calórico e a qualidade dos alimentos, não apenas o horário.

Mito: Exercício físico sozinho resolve.
Verdade: A prática regular é essencial, mas deve vir acompanhada de alimentação equilibrada e sono adequado.

Mito: Quem é obeso não é saudável.
Verdade: Há pessoas com sobrepeso sem doenças associadas, e pessoas magras com doenças metabólicas. O importante é o equilíbrio global.

Mito: O peso ideal é o mesmo para todos.
Verdade: Cada corpo tem uma composição e um ritmo. O objetivo é saúde, não padrões estéticos.


Caso ilustrativo

“Quando procurei ajuda, estava com cansaço constante, dores nas articulações e tinha acabado de descobrir que estava com pré-diabetes.
Eu achava que precisava de uma dieta milagrosa, mas minha médica me mostrou outro caminho: cuidar de mim com calma e constância.
Comecei com pequenas mudanças — caminhar três vezes por semana, reduzir o refrigerante e dormir melhor.
Em seis meses, perdi peso, minha glicose normalizou e, o mais importante, recuperei o prazer de cuidar de mim.
Hoje entendo que emagrecer não é apenas perder quilos, é ganhar qualidade de vida e autoconfiança.”
— Luciana, 39 anos

Esse relato reforça o impacto positivo do acompanhamento médico empático, que ajuda cada pessoa a transformar hábitos com segurança, respeito e propósito — fortalecendo o vínculo e promovendo resultados sustentáveis.


Prevenção e saúde a longo prazo

A prevenção da obesidade começa desde cedo — na infância, na escola e em casa.
Adotar hábitos saudáveis em família é a forma mais eficaz de construir gerações mais saudáveis.

Dicas simples de prevenção:

Refeições em família, com alimentos naturais.

Evitar o consumo excessivo de bebidas açucaradas.

Estimular brincadeiras ativas e movimento diário.

Manter horários regulares de sono.

Reduzir o tempo de telas e o estresse cotidiano.

Prevenir é sempre mais fácil — e mais humano — do que tratar as complicações depois.


Por fim…

A obesidade é uma doença complexa, mas tratável e controlável.
Com acompanhamento médico, mudanças graduais e acolhimento empático, é possível alcançar equilíbrio físico, emocional e social.
Mais do que buscar um número na balança, trata-se de reconstruir a relação com o próprio corpo, resgatar a vitalidade e redescobrir o prazer de viver bem.

Sou médica de família e comunidade, uma especialidade que cuida das pessoas em todas as fases da vida – da infância até a velhice.
O médico de família acompanha não só a pessoa, mas também a família como um todo, ajudando na promoção da saúde e no tratamento de doenças de forma integral, considerando a realidade e o contexto de cada um.
No cuidado da obesidade, essa abordagem faz toda a diferença: olhar para a pessoa inteira — corpo, mente e ambiente — e caminhar junto em cada passo da mudança.


Dra. Angélica Manfroi – Médica de Família e Comunidade

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *